Oct 20

O que pensar ao montar seu kit

1) Introdução

Hoje em dia é cada vez maior o número de praticantes de atividades ligadas à natureza.  Sejam elas esportiva, recreativa ou competitiva, todas exigem um nível de conhecimento, treino e planejamento que determina o sucesso do desafio proposto. Equipamentos de última geração, dieta, condicionamento físico, técnica adequada, previsão do tempo, transporte, documentação, tudo é levado em consideração, e algumas vezes um item importantíssimo é deixado de lado: o kit de Primeiros Socorros (PS).

 

Assim como um capacete adequado para fazer um downhill de bicicleta, um colete salva-vidas para fazer rafting, um bom kit de Primeiros Socorros pode ser a diferença entre vida e morte em uma situação emergencial. Pode significar também a diferença entre invalidez e recuperação.

 

Vale ressaltar de que não adianta carregar o kit sem o conhecimento necessário para utilizá-lo. Por isso a importância de cursos de Primeiros Socorros, que nos preparam não apenas para essas situações específicas, mas também para situações cotidianas, como aquele churrasco no qual o sobrinho fraturou a perna quando jogava futebol...

Mas como montar um kit de PS adequado para uma atividade ao ar livre?

Em primeiro lugar, devemos considerar o local que na maioria das vezes envolve a atividade: uma área de difícil acesso.

Área remota é uma localidade na qual a pessoa se encontra a mais de 01 hora do atendimento médico definitivo, onde se identifica 3 fatores fundamentais:

1 - Exposição aos fatores ambientais (chuva, vento, sol, etc.);

2 - Tempo prolongado de permanência com a vítima;

3 - Limitação do material disponível para atendimento.

Por si só, este já é um fator que determina uma série de procedimentos e estratégias preventivas durante o planejamento da ação.

Montar um kit de PS exige dedicação, estudo e planejamento antes da atividade. Cada atividade envolve um ambiente e uma técnica diferente, portanto suas lesões potenciais são distintas. Prevendo essas situações específicas, a elaboração do kit necessitará de soluções próprias e inerentes ao tipo de atividade desenvolvida.

Por exemplo, um kit de Primeiros Socorros para um grupo de rafting deve ser completamente impermeável, deve boiar e possuir uma alça para prendê-lo ao colete-salva vidas do líder; já um kit de Primeiros Socorros para um treeking deve ser antes de tudo leve com dimensões compactas para não ocupar um espaço excessivo no material carregado pelo grupo.

 

2) Como montar seu kit?

Alguns fatores são levados em consideração para se elaborar um kit de Primeiros Socorros:

- Qual o tipo de atividade praticada? Qual a sua duração?

- Quais os riscos da atividade? Quais são as lesões mais comuns  durante sua prática?

- Quantas pessoas estarão envolvidas?

- Onde será realizada a atividade?

- Qual a estrutura de atendimento hospitalar da região?

- Quais as doenças mais comuns da região?

- Qual o tempo previsto para uma possível evacuação de emergência?

- Existe um médico no grupo? Em plantão à distância?

- Qual o nível de conhecimento em Primeiros Socorros do guia ou dos participantes? E do responsável pelo kit?

- Quais os meios de Resgate disponíveis? Qual o tempo necessário para o atendimento médico definitivo chegar?

Depois de analisar tudo isso, surge a dúvida: a cada atividade eu vou precisar fazer tudo de novo?

Não!!! Existem princípios comuns e fundamentais que nos permitem montar um kit padrão, que permita lhe atender em 80% do tempo e que com poucas alterações se torna suficiente para os outros 20% das atividades. Para o leigo, ele é suficiente, no entanto para equipes especializadas e situações particulares, ele ficará aquém do desejado.

Os anexos 2 e 3 deste texto, exemplificam a lista de material para um kit básico, imaginando a atividade durante um final de semana, para um grupo de até 10 pessoas.

Quando lidamos com expedições profissionais e atividades comerciais, a questão muda de figura e as exigências são maiores. Diante do cenário legal (civil e criminal) no qual a operação está envolvida, a responsabilidade por um kit de PS adequado é maior, e por isso o kit deve ser o mais próximo do ideal possível.

 

3) Características de um bom kit de Primeiros Socorros:

Materiais adequadamente organizados em embalagens de fácil identificação, de preferência transparentes, permitindo visualizar o material em seu interior sem precisar abri-la. Um sistema de cores pode ser padronizado para que essa identificação seja mais eficiente  (ex. saco azul – vias aéreas, saco vermelho – hemorragias e choque,  saco amarelo – material de anotação).

Todos os medicamentos devem estar dentro do prazo de validade. Atenção especial neste ponto para os kits desenvolvidos para áreas remotas, pois as condições de armazenamento durante uma expedição pode invalidar determinados produtos antes do prazo declarado pelo fabricante (ex. calor extremo, umidade excessiva). Medicamentos apresentam menor vida útil que esparadrapos e ataduras.

Remédios e materiais vencidos devem ser descartados adequadamente, visando preservar principalmente a preservação e a não contaminação do meio ambiente. Portanto é necessário um meio de descarte (saco de lixo, caixa de papelão ou proteção para materiais perfuro cortantes).

Maleta ou bolsa de cor forte (viva), de preferência com faixas refletivas, identificadas por fora com a tradicional cruz vermelha em fundo branco ou com as palavras: “Primeiros Socorros”.

 

4) Dicas úteis:

Não acredite em equipamentos que se etiquetam específicos para resgate. Isso não é sinônimo de qualidade. Além disso, seu treinamento e reciclagem constante farão muito mais diferença que os últimos avanços tecnológicos quando estiver em campo atendendo uma vítima. Seu objetivo final deve ser o máximo de eficiência e esforço com o mínimo de equipamento possível.

Busque materiais ambivalentes e versáteis, economizando peso e espaço.

Converse com quem tem experiência no assunto, procure as especificações técnicas dos equipamentos, experimente, depois compre aquele que melhor se encaixa em suas expectativas.

Em situações específicas, como grandes grupos de viagem, considere a possibilidade de possuir um kit oficial para o grupo todo, carregado pelo responsável pelos primeiros atendimentos do grupo. O material que deve ser carregado em maior quantidade (gazes, etc.) pode ser dividido em pequenos kits (quotas individuais) carregados pelos demais

participantes. Consideração valiosíssima em algumas atividades, para que não se perca todo o material junto com a única mochila que caiu da balsa de rafting corredeira abaixo, por exemplo.

Durante uma viagem, parte do material pode ser deixada na barraca, pousada, hotel ou carro, de acordo com as atividades que serão realizadas;

É importante que o socorrista conheça a organização de seu kit de tal maneira que consiga encontrar o que precisa somente usando o tato, caso seja necessário. Ou ainda, passando informações precisas por rádio para que seu amigo possa localizar o material.

Especial atenção para o local e as condições de armazenamento do kit.

Imagine-se no escuro, à noite, procurando o kit de Primeiros Socorros no meio da bagagem dentro do porta-malas... Finalmente você o encontra ele está todo molhado, pois ficou embaixo da garrafa de água que estava aberta...

Toda medicação escolhida deve ser prescrita por um médico. Consulte seu médico de confiança. As orientações sobre o uso dos medicamentos devem ser seguidas rigorosamente.

Após o retorno da atividade, limpe, revise e reponha o material usado de seu kit. Cuide para que sua vida útil seja a mais longa possível. Especial cuidado com os instrumentos. Limpe a tesoura, afie se necessário, lubrifique e depois guarde. Se utilizada, a máscara de RCP deve ser descartada; ou trocado seu elemento descartável.

Além do kit é necessário conhecer o estado de saúde de todos os participantes da aventura, por isso uma ficha médica bem elaborada é fundamental, mas isso é história para outro bate-papo.