Oct 19

Poli Traumatismo

Atendimento pré-hospitalar em áreas remotas

Como a própria palavra diz, um “poli traumatizado” é um indivíduo que sofreu traumatismos das mais diversas formas e, até que se prove o contrário, o mesmo está sob risco iminente de morte devido a lesões de órgãos-alvo.

Em geral, ocorrem em traumas de alta energia, como em quedas de alturas, acidentes com veículos motorizados, ou, até mesmo em traumas aparentemente banais, porém com grande potencial de complicações por acometerem algum órgão vital, com grande possibilidade de sangramento. Uma vez ocorrido o acidente, tenha em mente alguns fatores :

1.   Qual a distancia e o tempo para levar a vítima a um hospital?
2.   Existe equipe de apoio para o resgate?
3.   Qual o hospital de referencia para sua equipe?
4.   Você conhece os profissionais que nele trabalham?
5.   O hospital está, do ponto de vista de recursos humano e técnico, pronto para receber todos os tipos de emergência?

 

Abordagem à vitima:

Um poli traumatizado,quando consciente, estará sempre abalado psicologicamente, ansioso e, muitas vezes agressivo. Seus companheiros e conjugues também estarão emocionalmente abalados e, mesmo que de uma maneira não pensada, poderão atrapalhar seu trabalho. Aja de maneira firme, técnica e racional. Não perca tempo. Lembre-se : cada segundo é preciso e pode ser o limite entre a vida e a morte.

Até que se prove o contrario, a vítima estará sofrendo o choque hipovolêmico , ou seja, estará perdendo sangue por ferimentos internos e externos, com perda progressiva da pressão sanguínea e falência de múltiplos órgãos. Não existe velocidade para que a morte ocorra e existe uma grande variação individual para a resposta a este choque. Obviamente, perdas menores em indivíduos jovens e atléticos levam aos menores graus de choque e menor risco de vida. Mas, isso não deve tranqüilizar o socorrista, que deve estar sempre pronto para o pior. A vítima que está consciente e conversa, certamente tranqüiliza o socorrista. Mas, mesmo esta, poderá estar em choque, de certa maneira anestesiada pela adrenalina e vir a falecer alguns minutos depois por perda sanguínea. O Traumatismo crânio-encefálico (TCE) é a primeira causa de morte no poli traumatizado. O sangramento abaixo da meninge Dura-máter causa aumento crescente da pressão intra-craniana e, atingindo certos níveis, a hipertensão intracraniana pode causar comprometimento de funções involuntárias como a respiração e os batimentos cardíacos, levando à morte. Por este motivo,vítimas inconscientes, com ferimentos e afundamentos da calota craniana devem ter remoção imediata

 

Agindo :

Grandes ferimentos, deformidades dos membros e grandes perdas de sangue realmente impressionam e tendem a nos fazer dar mais atenção na primeira abordagem à vitima, mas, em ordem de importância, existem outros órgãos a serem avaliados primeiro.

Tenha sempre em mente a sigla "ARETA" :

01) A : VIAS AEREAS - Verifique se há qualquer tipo de obstrução tanto na boca ou na garganta.Fale coma vítima. Pergunte : “Você está bem?” Se a vítima estiver inconsciente ou muito agitado poderá ter obstrução por dentes quebrados ou corpos estranhos. Remova tudo o que puder estar causando obstrução. Se a vítima vomitar, procure virá-la em bloco para o lado a fim de evitar a aspiração do vômito.

02) R espiração : Verifique se a vítima respira e se há dificuldade na mesma. Uma perfuração de pulmão poderá desencadear o chamado PNEUMOTORAX, ou seja , ar dentro do torax e fora do pulmão. Se a vítima apresentar ferimentos no torax e falta de ar, não perca tempo : oclua o ferimento com uma fita adesiva qualquer.

03) E xposição : Verifique as extremidades. Deformidades significam fraturas ou luxações. A cor azulada, ou CIANOSE significa sofrimento vascular. Não perca tempo no transporte.Minutos contam para salvar o membro. Se houver FRATURA EXPOSTA, nunca tente "recolocar o osso para dentro". Imoblize com o que puder improvisar (galho, corda, barbante, sempre pegando as articulações mais proximas. Ex : Fratura de punho - imoblizar dedos e cotovelo.

04) T ransporte: Imobilize a coluna cervical com o colar cervical, logo após transporte a vítima em bloco para a prancha longa.Caso contrário, é melhor solicitar socorro medico (SAMU / RESGATE ). Nestes casos uma lesão neurológica da medula pode ser agravada com o transporte inadequado.

05) A quecimento : Mantenha a vítima aquecida durante o transporte ou se está a espera do mesmo.



Dr. Adriano Leonardi
CRM/SP 99660
Mestre em Ortopedia e Traumatologia pela Santa Casa de São Paulo.
Médico ortopedista especialista em cirurgia do joelho, traumatologia do esporte e wilderness medicine.


Referências bibliográficas

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