Oct 16

A artroscopia do joelho

A artroscopia do joelho, assim como de outras articulações tem ganho popularidade e tem sido cada vez mais usada para o tratamento de doenças articulares devido a suas inúmeras vantagens.


História

A história das sucessivas tentativas, de olhar através de um tubo iluminado, para dentro de uma cavidade natural, reporta-nos a Viena, a 1806 e a Phillip Bozzini. A esta atitude, que desde essa altura se tem vindo a desenvolver para atingir o interior das várias cavidades naturais e melhor as poder estudar, chamou-se em 1853, e possivelmente com Desormeaux, endoscopia.

Em 1934, M.S. Burman, médico em Nova Iorque, publicou um artigo em que se descrevia pela primeira vez e claramente definida, a técnica da artroscopia. A descrição sistemática da inspeção do joelho era apresentada com muita clareza, bem como, as principais complicações possíveis, resultantes da técnica. Burman propunha ainda, a utilização da solução de Ringer,uma espécie de soro para fazer a distensão articular, solução que apesar de ultrapassada, ainda hoje é usada por alguns cirurgiões. Como indicações de utilização prática, realçava o uso da artroscopia, nas artrites do joelho e avaliação de lesões meniscais.

 



Depois de 1950 e tal como no inicio, o maior ímpeto e desenvolvimento, surgiu no Japão e precisamente com um seguidor de Tagaki, o Prof. M. Watanabe. A publicação do seu primeiro atlas de artroscopia, foi um marco importante, bem assim como o aparecimento do seu artroscópio nº 21, em 1960, instrumento que pelas suas características se espalhou pelo mundo e veio a motivar inúmeros cirurgiões, a tal ponto que em 1973, surgiu o primeiro curso de instrução artroscópica. Este teve lugar na Universidade de Pensilvânia e o seu sucesso foi tão significativo, que logo no ano seguinte se realizou o segundo.

Assim chegou-se a 1978 e com O’Connor surgiram os primeiros cursos de cirúrgica artroscópica, que pela sua inovação renovaram o entusiasmo geral, já que apesar de vir a ser praticada há algum tempo, nomeadamente por Robert Metcalf, Lanny Johnson e J. Dandy, era desconhecida na sua quase totalidade, bem como o seu próprio armamentário ( instrumental cirúrgico miniaturizado ). Com estes cursos, estava definitivamente implantada a artroscopia, como técnica de diagnóstico e cirúrgica, fundamentalmente. Desde então, a cirurgia artroscópica tem-se desenvolvido tão consistentemente, quer nas suas utilizações cirúrgicas, quer no aperfeiçoamento do seu instrumental, que cremos ser razoável afirmar, não ser possível a qualquer clínica ortopédica, deixar de a incluir na sua rotina diária de trabalho.


O artroscópio

Fundamentalmente e apesar de pequenas variações existentes de marca para marca, o artroscópio é um simples cilindro, com uma lente de ampliação em cada extremidade. A lente colocada na extremidade articular é a objetiva e a da extremidade contrária, é a ocular. Estas duas lentes, entre si, são separadas uma da outra, por séries de lentes, que estão preparadas de forma a transmitir a imagem vinda da articulação para o olho.

Todo este sistema de lentes por sua vez e que ocupa a totalidade da extensão do artroscópio, é rodeado por finas fibras ópticas, meio de transmissão da luz, proveniente da uma fonte luminosa e fundamentalmente para a visualização do interior da articulação.A sua ocular, está estruturada e preparada para permitir a adaptação, a sistemas de registro de imagem. Os mais utilizados, são o vídeo e a fotografia. Aquele apresenta hoje pequeníssimas câmaras digitais, que fazem prever em futuro próximo a solidarização definitiva dos dois instrumentos.


Indicações

As indicações para a prática da cirurgia artroscópica, estão hoje bem estabelecidas e são por isso bem conhecidas de todo o cirurgião ortopédico com adequada prática da técnica. De qualquer modo é importante salientar que a artroscopia, apesar de contribuir para o diagnóstico, não dispensa nunca a mais aturada avaliação clínica.

Para se realizar diagnóstico,utiliza-se  nas suspeitas de rupturas de menisco, de lesão dos ligamentos cruzados anterior e posterior, de lesão cartilaginosa e osteocondral (osso e cartilagem), de corpos livres intra-articulares, de osteocondrite dissecante, osteocondromatose, de artrite reumatóide, de sinovite vilonodular pigmentada, de hemangioma e na generalidade das situações indefinidas, que englobam o chamado joelho doloroso crónico, completando definitivamente toda a informação clinica e imagiológica. Com a artroscopia há a possibilidade de fazer, em tempo mínimo, o estabelecimento de um diagnóstico preciso e final.

 


O procedimento

De uma maneira mais simples, a artroscopia é feita realizando-se os "furinhos", ou portais em pontos estrategicamente pré-determinados para cada articulação. Pelos portais, introduzem-se os pontos de infusão de soro fisiológico, as pinças cirúrgicas, eletrocautério e as lâminas motorizadas, ou "shavers".

Opera-se sob visão indireta, tendo-se as imagens projetadas em um televisor. O cirurgião segura o artroscópio ligado a uma câmera compatível e manipula as pinças, enquanto que o auxiliar põe o membro e posições que facilitem o procedimento.


Vantagens

A artroscopia é, sem dúvidas um procedimento mais simples, menos invasivo e provoca menos transtornos do que a chamada “cirurgia aberta, na qual pele, subcutâneo, cápsula articular são abertos. A maioria dos pacientes que é submetida à este procedimento recebe alta hospitalar horas após (day hospital), reduzindo os custos hospitalares e o período de afastamento das atividades profissionais e esportivas.


Complicações

São muito raras, se comparadas aos outros procedimentos ortopédicos e perfazem menos de 1% das cirurgias. Incluem trombose venosa profunda, sangramento articular, conhecida como hemartrose, infecção articular e artrofibrose, uma espécie de contratura articular com perda de movimento. Assim como qualquer outro procedimento cirúrgico podem ser evitados pelo treinamento do cirurgião e equipe e afastando-se fatores individuais predisponentes.

 

Dr. Adriano Leonardi
CRM/SP 99660
Mestre em Ortopedia e Traumatologia pela Santa Casa de São Paulo.
Médico ortopedista especialista em cirurgia do joelho, traumatologia do esporte e wilderness medicine.