Sep 22

Lesões por Raios

É fato que:

• Os relâmpagos são a segunda principal causa ambiental de morte, com uma média de 50 a 300 mortes por ano.

• Dos 3,15 bilhões de raios que golpeiam a Terra e seus habitantes durante um ano, 100 milhões deles vêm desabar em terras brasileiras. O número, divulgado no ano passado por uma equipe de cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

• Em algumas tardes de verão, mais de 50.000 flashes por hora são detectados.

• O período da tarde é o período em que estatisticamente mais se registram vitimas, entre 15:00 e 18:00 horas. Isto se deve ao aquecimento da terra pelo sol, fazendo com que as nuvens cumulus verticais sejam formadas o  suficiente para produzir um raio.

• Os momentos mais perigosos para um raio são antes da tempestade aparece e depois que ela passou.

• Um raio pode cair no mesmo lugar com muita frequência.

• Um raio unidirecional pode transportar até 30 milhões de volts.

• Um relâmpago tem tipicamente 6 a10 cm de diâmetro, mas o revestimento ionizado é muito mais amplo, chegando até 20cm. A temperatura do mesmo é geralmente de cerca de 8000 graus C.

 

Mecanismos de lesão no corpo humano:

 

Contusão Direta (Direct Strike)

• O paciente é diretamente atingido pelo raio.

• Isso ocorre mais comumente para as pessoas que estão em áreas abertas e estão incapazes de encontrar abrigo.

• A corrente pode fluir externamente sobre o corpo ou entrar através dos orifícios e fluir através do corpo.

• Este é o tipo mais mortal.

 

Explosão lateral (side splash)

• O raio atinge diretamente outro objeto, como uma árvore ou um prédio, mas o fluxo de corrente, que procura o caminho de menor resistência sai de seu caminho original e atinge a vítima.

• Esta é a lesão mais comum.

• “Splashes” pode ocorrer de pessoa para pessoa quando várias pessoas juntas e em pé.

 

Exposição de contato

Ocorre quando uma pessoa está segurando ou tocando um objeto e é diretamente atingida, como por exemplo, ao se segurar uma torneira metálica.

• A corrente passa através do objeto para a vítima.

 

Corrente de solo (Ground current)

É produzida quando um raio atinge o solo ou um objeto e nas proximidades da vitima e se espalha pelo chão.

• Se uma pessoa tem um pé mais perto de onde o raio caiu, uma diferença de potencial pode existir entre os dois pés, e a corrente vai passar de uma para a outra perna.

• Isto acontece porque o corpo é de menor resistência do que o chão.

• Este é um mecanismo comum em que várias pessoas sejam atingidas, ao mesmo tempo.

 

Principais consequências da queda de raio:

É preciso diferenciar as consequências diretas (atingido por um raio) das consequências indiretas neste ambiente de risco que é a montanha. Na verdade, às lesões traumáticas devido à queda após o acidente.

Consequências dos raios no corpo humano

1 - Queimaduras: por arco ou por lampejo (flash), se o trajeto do raio não atravessa o corpo, nesse caso, as consequências são moderadas. Essas queimaduras devem ser diferenciadas das queimaduras eletrotérmicas profundas e graves, por efeito Joule, quando a corrente elétrica passa pelo corpo. A corrente elétrica preferencialmente utiliza o caminho de menor resistência, isto é, o sistema vascular nervoso. A lesão característica e patognomônica é a lesão de Ferning.

Queimaduras por Raios

 

Lesão de Ferning

2 - Efeito neurológico: O estado de coma não é raro, não importando o grau, superficial ou profundo. O estado de amnésia devido ao acidente, pela passagem da corrente elétrica na estrutura encefálica é frequente. A paralisia induzida por raio, lesão periférica acompanhada de distúrbios vasomotores pode ocorrer nas primeiras 24 horas. As sequelas de todo tipo são frequentes (hemiplegia, atrofia cortical, síndrome extrapiramidal, lesões medulares e de nervos periféricos).

3 - Lesões Cardiovasculares: A parada pode ocorrer por assistolia ou fibrilação ventricular. O miocárdio pode ser atingido diretamente (efeito joule), uma contusão miocárdica por onda de choque, trombose das artérias coronarianas e/ ou periféricas podem ser detectadas. Os distúrbios tardios do ritmo necessitam de monitoramento cardíaco por 48 horas. Uma hipovolemia pode ser de duas origens: esmagamentos (edemas extensos) ou eventual lesão traumática associada.

4 - Lesões Respiratórias: Pode ocorrer o estado de tetanização de curta duração dos músculos respiratórios, ou devido ao fato do sistema nervoso central (SNC) ter sido atingido, ruptura brônquica ou pleural por efeito direto, lesão da membrana alvéolo-capilar quando o ar superaquecido explode.

5 - Efeitos Neurosensorial: lesões oculares devido ao descolamento de retina e probabilidade de catarata devem ser examinadas. Podem ocorrer também as lesões auditivas, incluindo ruptura timpânica (perfuração do ouvido), distúrbios do equilíbrio (por labirintite).

6 - Efeitos musculares: lesão muscular extensa no caminho da corrente elétrica, com necrose profunda e rabdomiólise (síndrome causada por danos na musculatura esquelética resultando em extravasamento para o plasma do conteúdo de células musculares (mioglobina, potássio, fosfato, etc.).

7 - Efeitos renais: Existem essencialmente três consequências; tubulopatia devido a lise muscular (alteração do metabolismo); trombose arterial e lesão traumática.

8 - Efeitos cutâneos: queimaduras de vários graus, em particular nos pontos de entrada do raio (cirurgia reparadora é frequente e necessária) e nos locais de contato com peças metálicas (como o material de escalada, joias,), formato de folha de samambaia.

 

Consequências indiretas:

Antes de ser atingido: o pânico numa atmosfera de tempestade é frequente. Apenas sentindo o ruído ou o relâmpago, pode causar decisões precipitadas expondo o individuo a decisões perigosas que conduzem a acidentes.

Durante e após a queda do raio: se a vítima não estiver adequadamente presa e seguro, o choque pode resultar em queda fatal ou ser lançado de altura.

Consequentemente, lesões traumáticas devem ser investigadas, especialmente, lesões cranianas, raquidianas e lesões pelo cinto. Toda vitima de acidente com raios é suspeita de politraumatismo.

Finalmente, se o resgate não é imediato (tempestades costumam atrasar a busca), a hipotermia pode rapidamente aparecer .

 

Procedimento em ambientes remotos

A descrição típica de um raio com múltiplas vítimas é de um súbito lampejo de luz brilhante seguido por um grande estrondo e, em seguida, o caos. Ao se deparar com este cenário, você provavelmente verá pessoas confusas deambulando, pessoas que estão deitadas respirando. Estes dois primeiros grupos de pessoas não necessitam de atenção imediata. E, por fim, existirá um grupo de vítimas pessoas que estão inconscientes, em apneia, e sem pulso.

Este último grupo é o que requer sua atenção imediata. A isso, chamamos de "triagem-reversa." A razão para esta triagem reversa é devido ao fato de que as vítimas que estão acordados ou, pelo menos respirando sobreviveram a mais imediata e potencial lesão crítica, que é a parada cardíaca e respiratória.

 

Procedimento no local

Assegurar e garantir as funções vitais. Dependendo do ambiente, os principais procedimentos são: intubar (médicos), perfundir, sedar e imobilizar. Atenção à hipotermia ou traumatismo associados. Para evitar insuficiência renal uma reposição precoce de cristaloides é administrada, o mais rapidamente possível. Muitas vezes isso não é possível, devido às condições adversas do ambiente e dificuldades de voos de resgate. Na maioria das vezes, a remoção rápida é a única solução.

O que fazer se sua aventura é interrompida por tempestade de raios?

• A regra dos “30-30”: O primeiro "30": Quando o tempo entre ver os relâmpagos e ouvir o trovão é de 30 segundos ou menos, então você esta em perigo e deve procurar abrigo apropriado.

• O segundo "30": Atividades ao ar livre não devem ser retomadas até 30 minutos após o último raio é visto ou o último trovão é ouvido.

• Procurar abrigo em um edifício substancial ou todo o veículo de metal

• Abrigos, como campinhos de futebol, pontos de ônibus e abrigos de chuva podem aumentar o risco de você ser atingido.

• Todos os veículos de metal são seguros porque o metal vai difundir a descarga. É um mito que os pneus proporcionam isolamento.

• Não fique perto ou debaixo de árvores isoladas e topos de morros.

• Em uma floresta, procure uma área de baixa com mudas ou árvores de pequeno porte. Buscando uma clareira livre de árvores.

• Se você está completamente no descampado, fique longe de árvores isoladas.

• Uma boa posição é agachar com os joelhos totalmente flexionados e os pés juntos ou sentar-se de pernas cruzadas ou de joelhos no chão. Manter os pés juntos o impede de ser ferido por corrente de terra (Ground recorrente).

• Se você estiver em um grupo de pessoas, espalhem-se. Um único raio não vai tirar todo o grupo.

• Se você estiver na água, procure a costa e evitar ser o objeto mais alto do rio ou lago.

 

Dr. Adriano Leonardi
Medico ortopedista especialista em cirurgia do joelho.
Membro fundador do grupo Medicina da aventura
Vice-presidente da sociedade brasileira de medicina das áreas remotas e esportes de aventura.