Oct 24

Ilha das Cobras-por Dr. Eduardo Gualberto

Desde a antiguidade as serpentes despertaram o fascínio dos humanos, sendo personagens frequentes de lendas, rituais e simbologias. Isso ocorre, talvez, pela beleza de seus padrões, pelo modo com que se locomovem ou principalmente por serem um dos poucos animais que enfrentam o homem e podem lhe causar a morte.

No Brasil temos 265 espécies de serpentes, sendo que apenas 20% desta fauna consegue inocular veneno em suas presas. São as chamadas serpentes peçonhentas. Elas petencem a apenas duas famílias: Elapidae e Viperidae.

Na primeira família, onde se encontram as najas indianas e as mambas africanas, temos como representante no Brasil as cobras corais, de veneno neurotóxico potente mas pouco agressivas e com presas pequenas e curvas. Por esse motivo os acidentes com corais, apesar de graves, são raros.

A família Viperidae engloba o gênero Crotalus das cascavéis, o Lachesis da gigante amazônica surucucú e o Bhotrops, responsável pela grande maioria dos acidentes ofídicos no Brasil, representado pelas jararacas, urutú, caiçaca e jararacuçú.

O final da última era glacial, há 20000 anos, causou o isolamento geográfico e consequente surgimento de uma nova espécie botrópica em uma pequena ilha do litoral brasileiro. A Bhotrops insularis ou Jararaca Ilhôa é, portanto, encontrada apenas neste ambiente e desenvolveu características e hábitos próprios. Por não haver predadores naturais e alimentando-se de aves migratórias sua população na ilha é muito alta. Na verdade a Ilha da Queimada grande é o local da Terra com a maior concentração de serpentes por metro quadrado e todas elas são venenosas. A população estimada está entre 2000 e 4000 indivíduos. Durante uma tarde e percorrendo menos de 1000 metros de trilhas conseguimos avistar mais de dez delas em arbustos, nas árvores e no chão!

A Ilha da Queimada Grande, que tem esse nome devido aos frequentes incêndios naturais causados por raios, fica a 32 km do litoral de São Paulo, na altura do município de Itanhaém. Ela possui 430.000 km2 (uns 2km de comprimento), nenhuma fonte de água potável e é coberta de mata atlântica. Não possui praias ou atracadores, portando o embarque e desembarque na ilha é difícil ou impossível com tempo ruim. É inabitada e só é permitida a visita à Marinha, que faz a manutenção de um farol automático de navegação, e a pesquisadores do Instituto Butantan. Estes, por regra, só desembarcam na companhia de um médico, e esta foi a minha função no início de abril deste ano.

A necessidade de um médico em expedições à ilha tem um motivo simples: o trajeto de barco até a costa demora mais de 3 horas e o tratamento se iniciado antes disso reduz significativamente a morbidade.

Partimos de Itanhaém pela manhã em um barco de pesca de camarão adaptado ao transporte de turistas. Três tripulantes, quatro biólogos herpetólogos, um médico, um técnico do Instituto Butantan e uma equipe de reportagem da TV Record com repórter, câmera, produtor e dois assistentes.

A Barra da Conceição, como é conhecida a foz do rio Itanhaém, é famosa por afundar barcos. Saindo de um rio espelhado os barcos encontram ondas de até 3 metros e fundo raso onde a experiência de quem comanda o barco é fundamental. Todos com coletes e assim que atravessamos a arrebentação o sobe e desce do litoral sul de São Paulo já havia feito duas vítimas: um biólogo e um assistente do câmera correram para a popa do barco para alimentar os peixes com seus cafés da manhã.

Durante as três horas seguintes, metade da equipe sofreu os efeitos da cinetose mas aquele biólogo me preocupou: ele vomitava muito e nesses casos não é raro que o indivíduo some a desidratação com a alcalose devido à perda de ácido do estômago e chegue a convulsionar. Os barqueiros da região chamam isso de "bater pandeiro" (confesso que adorei o termo) e contaram como é comum por lá.

Um dos tripulantes, pescador típico que fala pelos cotovelos e é conhecido como Fofão, contou uma história que interessou muito aos biólogos. Segundo ele, quando o forte vento leste sopra na ilha algumas cobras são arrancadas das árvores e vêm parar no mar, nadando de volta para as pedras. Como isso nunca foi descrito eles pediram para que o Fofão fotografasse o fenômeno e enviassem para o Instituto.

Desembarcamos na ilha com a ajuda de um bote inflável que é literalmente arremessado nas pedras pelas ondas. Eu, que estava de mochila, usei um pouco do instinto de escalador para me agarrar na primeira saliência de rocha e subi para a parte sêca longe das cracas e ostras, mas os outros três que estavam comigo desceram escorregando pelas pedras uns 5 metros junto com o bote até ele voltar a flutuar. Demorou umas duas horas até que conseguíssemos trazer toda a equipe e equipamentos para a ilha, e após algumas fotos e depoimentos saimos das pedras em direção à mata. Todos com proteções nas pernas e instruídos para que se olhássemos bem onde colocaríamos as mãos, entramos numa mata alta, muito parecida com a mata atlântica que encontramos no continente após atravessar uns 50 metros de vegetação mais rasteira, que ainda sofre influência dos respingos de água salgada.

Logo encontramos alguns mosquitos e uma quantidade imensa de formigueiros de cor escura que contrasta com as fezes brancas dos atobás. Quando pisamos acidentalmente em um deles as formigas chegaram a cobrir toda a trilha e a subir rapidamente nas nossas pernas. Aí, na mata mais fechada, você acaba dividido entre bater nas calças para evitar as picadas doídas das formigas e se preocupar em olhar os galhos perto da sua cabeça procurando as jararacas douradas.

Sim! Elas, diferentemente das jararacas do continente, adoram subir nas árvores para caçar e repousar e foi assim que avistamos a primeira jararaca ilhoa: a um metro e meio de altura do chão, enrolada em um pequeno galho que se projetava para a trilha.

É um animal lindo! Apresenta uma cor amarelo-dourada, muito mais clara que o ambiente ao redor, mas que, estranhamente, não faz com que seja fácil avistá-la à distância. Durante o percurso íngrime (a ilha tem uns 200 metros de altura na sua parte mais alta) entre o local do desembarque e o farol, identifiquei oito serpentes. O que é incrível, considerando que o percurso não tinha mais de 300 metros e eu não sou treinado nisso. Os biólogos disseram que conseguem identificar mais de 60 serpentes em um só dia!

Percorrendo mais uns 800 metros passamos por um local de capim baixo e uma vista de tirar o fôlego, e entramos novamente na mata onde os pesquisadores costumam armar os acampamentos. Lá foi feita a coleta de uma jararaca adulta para colocação de chip, medição de peso, temperatura, tamanho e registro do local onde foi encontrada. Isso é a base de futuros estudos populacionais e comportamentais da espécie.

Alguns mitos foram desfeitos: seu veneno, segundo os últimos estudos do Butantan, não é mais potente que o das suas primas do continente. Além disso ela é uma cobra extremamente dócil, provavelmente por não ter tido que se confrontar com predadores nos últimos milhares de anos. Seu modo de caça é peculiar: enquanto as víboras classicamente picam suas presas e depois passam a seguir seu rastro até que o veneno faça efeito para ingerí-las, a jararaca ilhôa segura sua vítima com a mandíbula até que o veneno faça efeito. Isso faz todo sentido para uma serpente que caça aves e não pequenos roedores. Elas são menores que as jararacas comuns, raramente passando de 80 cm de comprimento. Uma surucucu que pode passar de 3,5 metros! A cor clara da jararaca ilhoa desaparece quando ela é mantida em cativeiro. Os indivíduos jovens têm a ponta do rabo escura que provavelmente é usada para atrair lagartos como se fossem larvas. Essa é uma tática de caça comum das jararacas do continente e provavelmente permaneceu nas ilhôas jovens que ainda não caçam aves.

O veneno botrópico tem uma ação proteolítica, coagulante e hemorrágica, com manifestações locais e sistêmicas. A picada é seguida de dor intensa e edema pronunciado com posterior lesão local e necrose tecidual. A destruição dos tecidos se dá pela presença de proteases e hialuronidases no veneno e a ação coagulante por dois mecanismos distintos: ativação direta do fator X da cascata de coagulação e uma ação trombin-like convertendo o fibrinogênio em fibrina. A hemorragia provavelmente ocorre por mecanismo de consumo.

Na expedição eu estava munido de 5 frascos de anti-veneno, soro fisiológico, material de infusão venosa, medicações endovenosas diversas, aparelho de pressão e um pequeno oxímetro de pulso. Com isso eu estava apto a iniciar o tratamento de um acidente ofídico até que o paciente fosse transportado a um centro hospitalar. O tratamento de um acidente botrópico é feito com até 20 ampolas de soro antibotrópico e reações anafiláticas graves são comuns. Após a soroterapia, medidas de suporte são sempre necessárias.

Na ocorrência de um acidente e até que se possa iniciar o tratamento devemos remover anéis e pulseiras, lavar o local com água e sabão pois as infecções secundárias são comuns, colocar o paciente deitado com o membro afetado ligeiramente levantado e providenciar o transporte. Qualquer outra substância, torniquetes, cortes, punções, sucções ou manobras são totalmente contraindicadas.

 

É incrível, mas as jararacas ilhôas estão correndo risco de extinção e o principal motivo é o comércio ilegal de animais. O fato de serem raras e só encontradas na ilha fez com que o preço de um exemplar no exterior chegue a U$20.000,00. Não há como fiscalizar ou monitorar o local mas existe um projeto de se criar um parque marinho nos moldes da Laje de Santos. O local é excelente para o mergulho inclusive com naufrágios.

Passei minha infância frequentando as praias do litoral sul de São Paulo e a Ilha Queimada Grande sempre me fascinou com suas histórias e lendas. Eu ainda falava em ser biólogo, lia tudo que podia sobre o assunto em uma época sem internet e frequentava o Instituto Butantan sempre que podia. Acabei me tornando médico mas nunca abandonei as aventuras. Participar desta expedição teve um significado especial, e a ilha, com suas cobras, é hoje ainda mais fascinante!

 

Dr. Eduardo Gualberto

Médico da Fórmula 1 (4 anos), Fórmula CART, Rally dos Sertões (7 anos), Resgate em helicóptero na DERSA (2 anos), Transporte aeromédico na UnimedAir (6 anos) com treinamento na Air Methods em Denver, EUA.

Piloto de avião e acrobacia aérea pelo DAC, mergulhador avançado pela PADI, fotógrafo, escalador (Andes e Himalaia).

Competiu na categoria Motos Production no Rally dos Sertões de 2004 obtendo o quinto lugar na categoria.

Participou de provas de rallys automobilísticos e várias corridas de aventura na equipe Conatus.

Atualmente trabalha como anestesiologista no Hospital Paulistano e é sócio da empresa G2 Adventure que promove, entre outros eventos esportivos, o Mitsubishi Outdoor há 5 anos.