Oct 21

Lesões na espeleologia

A Espeleologia é uma modalidade que exige caminha por terreno acidentado extremamente irregular com pouquíssima luz e pedras soltas, natação, conhecimento e preparo para técnicas verticais, abrindo um amplo leque de lesões, associado à dificuldade de remoção do praticante.

 

LESÕES ORTOPÉDICAS

 

Tornozelos: Comum entorses seguidos de lesões liagemtares ou fraturas.

Pés: Assim como no trekking, as lesões ocorrem por periodos prolongados de caminhada, incluindoFrostbite nos dedos do pé quando expostos à agua fria por períodos prolongados ; escoriações e bolhas por caminhada de longa distancia ou tênis inadequado

Joelhos: É uma articulação que "sofre" muito nesta modalidade, talvez mais que nas outras, pois, alem da irregularidade do terreno, o praticante é obrigado a agachar-se, assumindo diversos graus de flexão,suportando os mais variados torques de força predispondo a sobrecaraga femoropatelar.
Muitas vezes, o espaço restrito de uma caverna obriga o praticante a andar de cócoras e torcer o joelho ao invés do tronco. Este gesto está ligado a altíssima incidência de lesão dos meniscos ocasionando, alem de dor, "travamentos" e derrames.

Coluna vertebral: Comum síndromes dolorosas devido ao tempo prolongado em flexão ou lesões intrínsecas por movimento torcional carregando mochila pesada nas costas.

Mãos: existe sempre a posibilidade de agressões às mãos, principalmente quando se usa técnicas de escalada, podendo haver arrancamento de unhas, fraturas de falanges e lesões tendineas. Por isso, o preparo adequado das mãos e o treinamento prévio para tecnicas verticais são muito importantes.

Politraumatismo: caminhar dentro de cavernas com pouca luz pode levar o praticante a acidentes sérios, como quedas de grandes alturas. Embora esteja estatisticamente relacionado a praticantes que se aventuram sem os guias, também pode acontecer com os mais experientes. Saiba aqui o manuseio em primeiro-socorros

LESÕES NÃO ORTOPÉDICAS

Hipotermia: A Hipotermia é uma condição médica na qual a temperatura corporal da vítima abaixou significativamente abaixo do normal e seu metabolismo começou a ser prejudicado. Isso ocorre quando a temperatura corporal fica abaixo do 35 graus Celsius. Se a temperatura corporal ficar abaixo de 32 graus Celsius a condição pode ficar crítica e até fatal. Temperaturas abaixo de 27 graus são quase sempre fatais, embora pessoas tenham sobrevivido com temperatura de 14 graus. Estatisticamente, é a lesão mais comum na prática da espeleologia.

INFECÇÕES

Histoplasmose: Entrar em cavernas longas envolve preparo fisico e , se houver descuido, pode haver desidratação e fadiga.A sede dela decorrente leva o esportista a querer beber agua que corre nos pequenos corregos em seus interiores.O grande perigo desta pratica é a possibilidade da mesma estar contaminada por fezes de morcegos,podendo levar à HISTOPLASMOSE. Sintomas da infecção pulmonar são os típicos de penumonia, com febre, tosse com expectoração e tremores.

O sistema imunitário lida com a invasão pela formação de granulomas (como faz para todos os parasitas intracelulares), que impedem a disseminação da levedura mas também são destrutivos por si mesmos. Mais de 99% das infecções não é progressiva. No entanto em individuos imunodeprimidos (como os doentes com SIDA/AIDS ou com idade avançada), as leveduras disseminam-se dentro dos macrófagos, e pode haver adenopatias e infecções do fígado e baço. Nestes casos, pode surgir doença crónica com febre, suores e mal estar, ou se a imunodepressão for maior, progressão rápida e fatal.

O diagnóstico é feito pela observação microscópica de amostras de expectoração ou biópsia, identificando as leveduras dentro dos fagócitos. A cultura e a sorologia são também úteis.

O tratamento é com o fármaco antifúngico anfotericina B, mas é apenas necessário se a infecção for de estágio avançado, pois o sistema imunitário geralmente resolve o problema.

Leptospirose: A leptospirose, também chamada de doença de Weil em seu quadro mais severo, é uma doença bacteriana que afeta seres humanos e animais e que pode ser fatal. É uma zoonose causada por uma bactéria do tipo Leptospira.

Nos seres humanos causa ampla gama de sintomas, mas algumas pessoas infectadas podem ser assintomáticas, isto é, não apresentam sintoma algum. Sintomas da doença podem incluir febre alta, fortes cefaléias, calafrios, dores musculares, vômitos, bem como icterícia, olhos congestionados, dor abdominal, diarreia ou coceira. Complicações incluem falência renal, meningite, falência hepática e deficiência respiratória, no que caracteriza a forma mais grave da doença conhecida como doença de Weil. Em casos raros ocorre a morte.

O diagnóstico da doença não é fácil, dada a variedade de sintomas, comuns em outros quadros clínicos. O diagnóstico final é confirmado por meio de testes serológicos como o Ensaio Detector de Anticorpos de Enzimas (ELISA, no acrônimo em inglês) e o PCR (acrônimo em inglês para Reação em Cadeia da Polimerase = Polymerase Chain Reaction).

A infecção nos seres humanos é freqüentemente causada por água, alimentos ou solo contaminados pela urina de animais infectados (bovinos, suínos, eqüinos, cães, roedores e animais selvagens) que são ingeridos ou entram em contato com membranas mucosas ou com fissuras ou rachaduras da pele. A prática da espeleologia em ambientes rurais com animais infectados pode levar à doença.

A leptospirose é tratada com antibióticos, como a doxiciclina ou a penicilina.

ACIDENTES COM ANIMAIS

Aranhas: Não é novidade que cavernas são habitadas por uma fauna abundante. Entre os invertebrados cavernícolas mais amplamente distribuídos e abundantes em cavernas brasileiras estão as aranhas do gênero Loxosceles, ou Aranha Marrom. São aranhas pouco agressivas, dificilmente atacam pessoas. As picadas ocorrem como forma de defesa, quando macho ou fêmea (ambos peçonhentos) é quando comprimido contra o corpo, durante o sono, no momento do uso das vestimentas (calçando um sapato, por exemplo) ou ao serem tocadas de maneira violenta ao caminhar dentro de uma caverna.

No ato da picada há pouca ou nenhuma dor e a marca é praticamente imperceptível. Depois de 12 a 14 horas ocorre um inchaço acompanhado de vermelhidão na região (edema e eritema, respectivamente), que pode ou não coçar. Também pode ocorrer escurecimento da urina e febre. Os dois quadros distintos conhecidos são o loxoscelismo cutâneo (o que normalmente ocorre, onde há a picada na pele) e o cutâneo-visceral (com lesão cutânea associada a uma hemólise intravascular).

Com o avanço (sem tratamento) da picada, o veneno (dependendo da quantidade inoculada) pode causar necrose do tecido atingido, falência renal e, em alguns casos, morte. Somente foram detectados casos de morte - cerca de 1,5% do total - nos incidentes com L. laeta e L. intermedia.

Logo após a picada lave o local com água e sabão abundantes e não faça torniquetes, para evitar a gangrena do veneno e minimizar os efeitos da necrose. É interessante que a região da picada fique em repouso, dificultando a absorção do veneno. Não furar, não cortar, não queimar, não espremer, não fazer sucção no local da ferida e nem aplicar folhas, pó de café ou terra, não dar à vítima pinga, querosene, ou fumo. Levar a vítima ao serviço de saúde próximo o mais rápido possível, levando a Aranha (morta ou viva) para identificação de espécie e confirmação da necessidade de soro. Vale lembrar que tais procedimentos servem para qualquer ataque de animal peçonhento.

O soro utilizado para combater a picada desta aranha é composto de Antihistamínico/anticolinesterásico/dapsona e 5 ampolas de soro antiaracnideo polivalente ou soro antiloxosceles EV, que deverá ser ministrado ao paciente até 36 horas depois do acidente com a aranha.

Morcegos: Mais de 30 espécies de morcegos foram registradas em cavernas brasileiras. Em áreas habitadas onde há criação de animais domésticos, tais como galinhas, porcos, eqüinos e gado, o morcego mais abundante é, de longe, o vampiro comum, Desmodus rotundus. No Alto Ribeira, por exemplo, quase 70% dos morcegos observados em cavernas pertencem a esta espécie. Acidentes por mordedura podem acontecer.Pelo fato de sua saliva ser extremamente contaminada pelo virus da raiva, o acidente é classificado como grave sempre e está indicada a sorovacinação.

 

Dr. Adriano Leonardi
CRM/SP 99660
Mestre em Ortopedia e Traumatologia pela Santa Casa de São Paulo.
Médico ortopedista especialista em cirurgia do joelho, traumatologia do esporte e wilderness medicine.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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