Oct 21

Escalada e Cobras

Por Eduardo Gualberto

Recebi um e-mail do Alê Silva há uma semana com o seguinte comentário: “Edu, quase sentei numa cobra!” Antes que eu tivesse tempo de pensar em tudo o que esta frase pudesse querer dizer, olhei para a foto anexada e lá estava ela, uma urutu-cruzeiro adulta junto da corda de escalada!

O fato ocorreu na Pedra do Bauzinho, junto à saída da via Selivié, no mesmo dia que o Reinaldinho machucou o pé em uma queda na via Chove-não-molha. Escaladores estão constantemente expostos a encontros com animais peçonhentos, não só nas aproximações como na própria escalada. Abelhas, marimbondos, taturanas, aranhas, escorpiões e cobras são os animais que podem causar mais problemas. Como o assunto é extenso, vamos hoje falar sobre as serpentes venenosas e o que os escaladores devem saber sobre elas. O Brasil é rico em espécies de serpentes, sendo que menos de dez por cento delas são venenosas. Seu habitat típico é a mata onde podem se alimentar e esconder de predadores, próximo a riachos ou alagados (exceto a cascavel que prefere lugares mais secos) e com uma atração especial a terrenos rochosos. Ou seja, temos o mesmo gosto que as meninas. São, em sua maioria, tímidas e evitam o confronto. Só atacam quando se sentem ameaçadas e fogem assim que têm a chance. São registrados no Brasil cerca de 20.000 acidentes com cobras peçonhentas por ano e a maioria nos meses quentes e chuvosos.

A Urutu do Alê, provavelmente estava se retirando do local, apesar de ter chegado antes na via, mas não hesitaria em dar uma dentada no seu glúteo quando ele estivesse vindo em sua direção. E o que teria acontecido com o Sapo? (Ah! Sapo é o apelido do Alê e um dos pratos preferidos das cobras!)

Bom, a urutu é uma serpente do gênero Bothrops (como a jararaca, jararacuçu, caiçaca, e outras) e seu veneno é proteolítico, ou seja, destrói determinadas proteínas. Inicialmente a inoculação do seu veneno causa alterações locais como dor, inchaço e equimoses (manchas roxas). Nem sempre conseguimos identificar as marcas deixadas pelas presas na pele. Mais tarde podem aparecer bolhas hemorrágicas e necrose (morte dos tecidos), assim como infecção secundária causada pelas bactérias presentes também na boca da safada. O sangue pode se tornar incoagulável predispondo a hemorragias. É por esse motivo, senhores, que jamais deverão ser feitas manobras heróicas como perfurações, torniquetes, chupadas, cortes, e muito menos a colocação de fumo, teia de aranha, pó de café, urina, ou sei lá mais o que essa gente pode inventar na hora. O Alê deveria ter sua bunda dolorida lavada com água e sabão e ser levado, o mais rápido possível, a um centro capacitado em aplicar a soroterapia, que ainda é o único tratamento eficaz. Há uma relação completa desses centros no site www.cve.saude.sp.gov.br/htm/zoo/Zoo_uni1.htm. Decorou? Nem adianta. Não vai ter internet por lá mesmo! Mas a grande maioria dos pronto-socorros das grandes cidades estão na lista. Durante o transporte o acidentado deve fazer pouco esforço, apesar de nem sempre isso ser possível, e manter o membro afetado elevado . Ele teria cerca de oito horas pra chegar ao hospital a tempo de evitar lesões mais graves.

A soroterapia só deve ser feita em ambiente hospitalar, devido à grande probabilidade de reações alérgicas. Para se ter uma idéia, em um tratamento de um acidente grave (quando uma cobra adulta consegue introduzir profundamente as duas presas) podem ser utilizadas mais de 20 ampolas de soro.

Acidentes com cascavéis são mais graves, apesar de bem mais raros. Elas demoram mais a picar e antes disso fazem um barulhão com os guizos da cauda avisando que estão pensando em fincar os dentes em alguém. Parece com o som de gás vazando. Escaladores mais lesados são suas maiores vítimas potenciais, portanto. E lesados dos boulders porque elas não gostam de altura. São cobras do gênero Crotalus e seu veneno é principalmente neurotóxico. Normalmente não há dor e o mané pode queixar-se de fraqueza, paralisia de músculos da face e dores musculares. Conheço escaladores que não mudariam nada se seus músculos faciais fossem paralisados. Enfim, diziam que picada de cascavel deixavam as pessoas cegas, mas um dia um médico muito esperto percebeu que levantando a pálpebra das vítimas com o dedo elas voltavam a enxergar! Bom, mas a coisa pode ficar séria... Esta paralisia pode afetar os músculos da respiração e aí o mongo já era. A lesão muscular disseminada joga na corrente sanguínea uma proteína que se chama mioglobina. Ela deixa a urina escura como coca-cola que mais tarde entope os glomérulos causando insuficiência dos rins. Tudo isso faz com que tratamento de acidente crotálico deva ser tratado em unidades de terapia intensiva.

Style mesmo é a Surucucú-bico-de-jaca do gênero Lachesis. Uma cobra magnífica que só é encontrada na Amazônia e na Mata Atlântica ao norte do Espírito Santo. Diferentemente das primas, ela tem o péssimo hábito de perseguir as vítimas que não conseguiu picar e, por causa do seu tamanho, pode injetar uma quantidade enorme de veneno. A sintomatologia é muito parecida com a do acidente botrópico mas o tratamento é com soroterapia específica.

As cobras corais, gênero Micrurus, não foram bem projetadas se o objetivo era o de acabar com os escaladores. Suas presas são pequenas e curvadas pra trás só conseguindo inocular o veneno em dobras da pele o que torna os relatos de seus acidentes raríssimos. Mas se alguém for treinar reglete na boca da bichinha vai se dar mal. O veneno possui neurotoxinas muito potentes podendo causar paralisia respiratória e a morte em poucas horas. E não queira vir com fórmulas pra diferenciar as corais verdadeiras das falsas pelas cores, pra poder pegá-las com as mãos e impressionar as gatitas. Já vi técnicos no Instituto Butantan errarem o diagnóstico até que abrissem sua boca para examinar a dentição.

Não fique perdendo tempo tentando identificar se a cobra é ou não venenosa, afinal você foi até a rocha pra escalar. Quando encontrar uma cobra faça como o Sapo Silva, dê um olá, bata uma foto e vá pra outro canto. Use óculos, se necessário, para diferenciar a cobra da corda e assim evitar de passá-la pelo seu ATC. Entre uma via e outra calce o tênis, que protege mais que a sapatilha e não vá enfiando a mão em qualquer buraco no chão. E, por fim, seja melhor que elas. Duvido que você vá achar uma cobra pendurada numa via 8c exposta a 100 metros de altura!

Eduardo Gualberto 47 anos além de escalador é médico anestesiologista. Trabalhou no centro de intoxicação de Sorocaba e fez especialização em animais peçonhentos no Instituto Butantã em São Paulo.