Oct 07

E agora?

Nos textos que escrevi recentemente sobre primeiros-socorros, você encontrou dicas do que fazer e como agir em situações de risco, mas desta vez quero ressaltar o que não fazer nesses momentos que, por incrível que pareça, qualquer um pode vivenciar.

Vamos começar por algo corriqueiro. Você está comendo em um restaurante e, de repente, a pessoa da mesa ao lado engasga e começa a sufocar.

Pode parecer certo e também já escutei essa “dica” várias vezes, mas não vire a pessoa de cabeça para baixo ou assopre em direção ao rosto dela! Isso, além de não ajudar em nada, atrasa a manobra correta que deve ser feita para ajudar a pessoa a expelir o corpo estranho. Saiba e aprenda primeiros socorros básicos e aplique a manobra de Heimlich posicionando-se por trás da vítima.

Ao ver alguém com um membro quebrado, não tente alinhar a fratura! Caso ela esteja próxima a algum vaso importante, o alinhamento malfeito pode causar uma hemorragia grande a agravar o problema. Chame profissionais que são treinados para isso!

Ao encontrar uma pessoa epiléptica ou alguém tendo uma convulsão, não tente desenrolar a língua da vítima. Sei que muita gente diz que, se isso não for feito, a pessoa pode morrer por “engolir a língua”, mas acredite: isso não acontece. Em vez de arriscar seus dedos (lembre-se que uma pessoa tendo convulsão não está consciente e não controla a força da sua mordida), apenas tire de perto qualquer objeto perigoso que possa cortar ou machucar a pessoa e proteja sua cabeça.

Quando viajar e comer algo que não cair tão bem ou que tenha uma procedência duvidosa, você pode desenvolver diarréia. Não tome remédios para inibir a diarréia pelo menos nos primeiros dias. Isso é um mecanismo de defesa do seu corpo para expelir vírus, toxinas ou bactérias ruins que entraram e precisam sair. Hidrate-se bem, com água, sucos e bebidas isotônicas diluídas. A maioria das diarreias é autolimitada, ou seja, em menos de sete dias cessam sozinhas.

Ao se queimar ou ao ver alguém que sofreu uma queimadura, não ponha gelo no local. Poucas pessoas sabem, mas o gelo queima tanto quanto o fogo e lesiona um tecido que já está fragilizado. O certo é lavar com água fria e corrente, não esfregar e tentar manter o local o mais limpo possível para evitar infecções até chegar ao hospital.

Se por acaso você encontrar uma pessoa que foi picada por cobra, não tente chupar o veneno. Além de não ajudar em nada, espalhando milhares de bactérias da sua boca no local da ferida, você também corre o risco de se intoxicar com a pequena quantidade de veneno que conseguir chupar, já que a mucosa da boca, assim como qualquer outra mucosa do corpo, tem uma grande propriedade absortiva.
Para os apaixonados por altas montanhas e pela neve, como eu, caso algum dia você depare com um pé ou uma mão congelada, não ache que esfregando a extremidade congelada você estará ajudando a pessoa. O mecanismo de congelamento de tecidos é bem complexo, e um tecido que chegou a esse grau de esfriamento está frágil. Apenas encoste delicadamente a parte congelada em uma parte do seu corpo que esteja quente ou, se disponível, coloque em água corrente a 39 graus Celsius até voltar a sensibilidade e a coloração normal. Mas lembre que um frostbite grau 4 (o pior grau) não pode ser recuperado mesmo dentro do melhor hospital.

E agora espero que você nunca encontre alguém nesta situação (eu já encontrei e gostaria que alguém tivesse me dito isto): não diga a um suicida que ele é fraco e que, ao tentar se matar, ele está tendo uma atitude covarde. A última coisa que uma pessoa que chegou a esse grau de desespero precisa escutar é mais uma crítica, e isso aprendi de um querido amigo, o major do Corpo de Bombeiros de SP que estuda abordagem ao suicida e dá palestras no mundo inteiro sobre isso.

E, por fim, procure estar preparado para situações de emergências, elas podem acontecer com a gente ou com alguém próximo e nunca sabemos quando! Tenha um bom seguro saúde, um bom seguro viagem e, ao ir para áreas super remotas, certifique-se de que você contratou um seguro que tenha resgate aéreo, sempre.

Espero que você esteja levando daqui algo que será útil para ajudar alguém qualquer dia destes...
Karina Oliani é atleta EMANA e The North Face e apresentadora de programas de esportes extremos.
Atualmente é a única médica da América Latina a ter o título de especialista em Wilderness Medicine pela WMS (Wilderness Medical Society) e é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Áreas Remotas e Esportes de Aventura e trabalha no Medicina da Aventura.
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